Movimento cívico de apoio à candidatura de Manuel Alegre

A um Poeta: surge e ambula!
Recordo-me de Antero. O intróito deste texto já estava gizado, mas elidi-o quando o pensamento, ao fluir, se encontrou com “as causas da decadência”… Embarguei-o. Não podia introduzir aspas no intangível, mas a sensação de rapina infiltrou-se. E recordei Antero, autor do percuciente ensaio “As causas da decadência dos povos peninsulares”. Amputo as duas últimas palavra, abdico do plural precedente, e assoma “As causas da decadência de Portugal”.

Seria petulância exacerbada acreditar que seria capaz de perscrutar as razões que subjazem ao declínio de Portugal. Não é, destarte, meu propósito proceder a uma prolixa exposição que incida sobre os nutridores da decrepitude portuguesa, pelo que me cinjo à detecção da mais excruciante pústula que criva o corpo de Portugal: a lassidão cívica. Se a política apresenta máculas, não é intelectualmente probo ilibar o povo. O “partidarismo” monopolizou a vida cívica, tendo-se esvaído toda o enlevo que a política, logo após o 25 de Abril, infundia nas massas. Hoje, o povo mantém-se distante e entorpecido. A desilusão levou a que, progressivamente, as massas alienassem as suas responsabilidades cívicas, delegando a missão de edificar Portugal na classe político/partidária. Quando se manifesta o “povo”? Vocifera quando uma câmara explora as suas lamúrias plangentes, ou quando sente que um dedo esguio e astuto provoca pruridos perto das virilhas. “Mexem-nos nos bolsos”, bradam. Depois hibernam. E a “res publica” volta a ser de uns, reduzindo-se grande parte dos diálogos sobre “a política” aos argumentos carcomidos, segundo os quais “os políticos são todos iguais”. Nem diálogo é. São verrinas rudes, com meneios de cabeças. Aquiescentes ou não, dependendo do contexto. Mas existem razões, porque faltam ideais impolutos, credibilidade. Faltam, essencialmente, estímulos que incutam nas massas a crença de que é possível depurar a democracia.

Alegre, acabrunhado, abdicou da sua candidatura por razões de fidelidade partidária. Apesar de compreender o intento de não provocar cesuras na esquerda, digladiando-se contra o candidato oficial do “partido”, Alegre golpeia o ideal cívico ao sucumbir às lógicas partidárias. Se “a República não tem donos”, a Democracia também não. Sendo assim, exaspera-me assistir à prostração de um cidadão devido à palavra de um partido. A Democracia faz-se com os cidadãos, incluindo os apartidários, como eu. Se Alegra está no seu “quadrado”, manietado pelo partido e refém deste, ergam o gládio cívico os cidadãos que repudiam a redução da política ao partidarismo. Ergamo-nos, pois, nós. Erga-se, pois, Alegre. Ergamo-nos todos, alegres.

A política não se faz sem o sonho, e os portugueses deixaram de sonhar. São eles, na verdade, os seus próprios castradores. A mera hipótese de Alegre se insurgir, com um vasto sustento cívico destituído de elos partidários, contra a modelação do regime em função das volições egocêntricas dos partidos, originaria, acredito, a adesão daqueles que, estremunhados, regressam do exílio cívico. Alegre faria sonhar, como outrora, quando evidenciava a sua índole refractária contra a opressão ditatorial. Também há opressão em Democracia. Se Manuel Alegre contribuiu para erigir a Democracia, pode auxiliar na missão de aprimorá-la.

Em nome da cidadania, em nome da Democracia, decalco Antero e, dirigindo-me “A um Poeta”, exorto: Surge e ambula!

A um Poeta

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares…
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera só um aceno…

Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções…
Mas de guerra… e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!
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